Canção Amiga

Eu preparo uma canção

em que minha mãe se reconheça,

Todas as mães se reconheçam,

e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua

que passa em muitos países.

Se não me vêem, eu vejo

e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo

como quem ama ou sorri.

No jeito mais natural

dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas

formam um só diamante.

Aprendi novas palavras

e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção

que faça acordar os homens

e adormecer as crianças.

Carlos Drummond de Andrade


Anúncios

Menos hipocrisia, mais sinceridade.

“Vivemos sob o véu da hipocrisia social. Todos nós, cada qual na sua vida, é maravilhoso, íntegro e honesto. E mais, nenhum de nós abriga maus sentimentos, rancores, ideias de exploração, incompetência, mesquinhez. Esta mentira coletiva está na base do nosso processo de socialização.” Gaiarsa

Todos somos aos olhos dos outros, ou ao menos tentamos aparentar a esse outro, a perfeição em pessoa. Nossas famílias são felizes, nossos trabalhos são maravilhosos, e vivemos bem, muito bem. Mas no fundo desta história, essa é a verdade do que sentimos? Nenhuma vida é perfeita, nenhuma vida é intocada, mas ao mesmo tempo esta é a eterna imagem que tentamos passar adiante.

É o clássico “Tudo bem com você?” que nunca é respondido com sinceridade, afinal, quem pergunta está também realmente interessado em ouvir a resposta sincera sobre isso?

E às vezes é bom responder.

Não, não está tudo bem!

A vida tem se tornado cada vez mais difícil, sinto que as pessoas cada vez mais estão se afastando da sinceridade das relações para viverem presas em relações estereotipadas, estão cada vez mais alheias ao seu discurso e mais impacientes e intolerantes com a vida dos outros. Sinto também que as pessoas que buscam essa ‘verdade’ estão sendo tomadas por loucas, rotuladas a todo momento como pessoas que não fazem parte deste sistema maluco e débil e que deveriam fazer.

Um exemplo bem próximo e particular. Desisti de viver sob a ditadura da beleza que foi imposta a mulher, de sofrer com depilações, horas no salão de beleza, gastar rios com produtos de beleza. E incrivelmente já fui tomada e sou tomada em muitos momentos por pessoas próximas como desleixada, ‘por não gostar de mim’, ‘aquela que não gosta de se cuidar’, considerada como ‘hippie’. Não, não sou hippie. Simplesmente decidi não querer mais essa obrigação de estar sempre bela para o homem a custa de sofrimento. E não é por isso também que não gosto de me enfeitar, mas diferentemente de antes, quando passava por uma via crucis, hoje opto pela lei mais prazer, menos dor.

Portanto, pelo menos dessa vez devo dizer, não, as coisas não estão bem, não estão bem comigo, não estão bem no mundo, pois não consigo deixar de me entristecer ao ver a realidade que tem se tornado cada vez mais mesquinha e mercenária. Não consigo deixar de me entristecer quando me dou conta que se de fato eu fosse mais sincera comigo e com as pessoas seria enchovalhada pelo mundo que não dá liberdade às pessoas de descobrirem seu próprio caminho. Vivemos numa ditadura da existência. E não, não fico nenhum pouco feliz com isso.

Sonho infantil…

Desejaria que as pessoas… que não fossemos obrigados a representar uma série de papéis que nós não queremos representar. Que nos pudéssemos aceitar uns aos outros com mais simplicidade e mais brandura”.[1]

Certo dia ouvi a frase de um rapaz, muito sucinta e esclarecedora, falando sobre nossa sociedade: quando criança, nos fazem viver o mundo da fantasia, de princesas, Papai Noel, para então depois quando adultos colocarmos um boné da Nike e seguirmos a fantasia. “Acreditamos no boné da Nike”. Mas acreditamos no que especificamente?

Primeiro, é importante falar sobre a fantasia que vem aliada à posse de um objeto.

Acredito ser senso comum que as pessoas ao comprarem um objeto, principalmente objetos com status social (as últimas inovações tecnológicas, vestimentas de ‘marca’, carros novos etc) não o compram exclusivamente pela materialidade do produto. Isto é, a pessoa que compra um adereço de marca pode até estar interessada na qualidade do produto (afinal a marca seria uma forma de indicar a procedência daquele objeto), mas acredito que seu interesse não se resume a isso. E já dei a dica da resposta: o status social.

Vivemos em uma sociedade que a todo momento precisamos nos reconhecer enquanto dela participantes. A todo tempo nos cobram isso, a todo tempo esperamos por isto, pelo reconhecimento social. E como consegui-lo?

Neste ponto entra especificamente o fato de vivermos numa sociedade do consumo. Como participar da sociedade do consumo a não ser consumindo? E não basta consumir qualquer coisa. Precisamos consumir o que nos disseram que precisamos consumir.

Mas desde quando nos dizem o que devemos consumir? Voltemos ao caso da fantasia infantil. A criança é levada por nós adultos a um conto fantasioso, no caso do Papai Noel, por exemplo, no qual seus comportamentos terão alguma recompensa final, e que aquele presente de natal a fará feliz (e faz mesmo, naquele momento). Assim como em outros momentos, acontece na criança a produção do desejo, do consumo especificamente. Lembro-me de quando criança muitas vezes era perguntada sobre o que escolhi de presente de natal. Mas não era uma expectativa minha inicialmente, eu tinha que escolher pois meus pais me indagavam sobre isto, e eles sim tinham esta expectativa, pois de certa forma o presente de natal era um álibe para meu bom comportamento, e também resgatavam sua fantasia infantil – era como se eles estivessem revivendo aquele momento. E um detalhe, o presente não poderia ser qualquer coisa. Aonde escolher então o presente? Quer algo melhor do que assistir tv com seus infindáveis comerciais e sugestões de felicidade: “com o tênis do seninha você vai fazer sucesso na turma”. Desde cedo somos inseridos na sociedade do consumo, mas não é apenas isto.

A educação de crianças funciona majoritariamente pela técnica de reforço: a criança faz algo, nós aprovamos ou desaprovamos. Olhamos para ela com felicidade ou rancor. Quando faz algo considerado ‘correto’, sorrimos, festejamos, entramos em contato com ela carinhosamente, e ela se sente amada e aceita. Engraçado que isso me faz lembrar certos comportamentos sociais que tenho observado, quando por exemplo faço algo, digamos, que esteja no ‘hall’ de coisas certas de nossa sociedade. Exemplificando melhor: sou mulher, e por esta razão sou ‘cobrada’ socialmente para estar ‘bem’ vestida, elegante, maquiada. E vejo que quando assim estou, recebo não apenas elogios, como um simples: nossa, como está bonita! Mas sim um: gostei de ver hein… está bonita! Como se fosse, ‘agora sim você está agindo de maneira correta’! Não sei se pelo texto escrito é possível observar esta diferença dos dois comentários, porque a ênfase fica também na expressão vocal, e não no conteúdo. Afinal, um conteúdo pode ser passado de milhares de formas, dependendo da forma como foi dita. Em suma, acredito que vivamos numa sociedade do reforço. Os comportamentos ‘corretos’ socialmente são valorizados, os comportamentos que saem deste padrão são rechaçados. E claro que a recompensa faz parte deste mecanismo.

Quando compramos, não queremos também uma recompensa?

Um dia ouvi de uma amiga: “gastei muito dinheiro comprando roupas, mas afinal, não é para isto que eu trabalho? Eu mereço, ao menos, depois de tanto trabalhar.”

Podemos visualizar alguns sentidos desta simples afirmação. O primeiro e evidente é a relação que estabelecemos atualmente com o trabalho. O trabalho é visto como um sofrimento necessário que passamos para que consigamos consumir aquilo que nos deixará feliz. Ou seja, a nossa vida não está no trabalho. E isto é evidente na maior parte das pessoas. Trabalhamos simplesmente adiando uma recompensa futura, pois ela virá ao final do mês com o salário e com as compras que faremos, e então poderemos ser felizes.

É como se ao trabalharmos estivessemos abrindo mão de nossas vidas, e portanto a recompensa é apenas aquilo que dará sentido ao trabalho. Claro que não é generalizante. Realmente existem pessoas onde a vida escorre no trabalho, e vejo isto, claro que romanticamente, bem claro em alguns artistas. Para muitos deles o próprio trabalho – artístico – estava descolado da forma de receber dinheiro. Vejamos o caso de Carlos Drummond de Andrade, que declarou como profissão o funcionarismo público, mas que deixou como legado uma vastíssima obra literária. Obra, reparem bem no nome dado. Obra artística. Não é a toa o nome.

Voltando ao caso da recompensa, é importante falar que a recompensa pelo consumo só faz sentido por vivermos também num mundo bombardeado por comerciais. É impossível andar por uma cidade e não ver nenhuma propaganda. Mais impossível ainda é assistir a tv e também não ser bombardeado, até pela internet assistimos a comerciais.

O mais importante é que a todo momento é reafirmado que o que temos não é suficiente. Na realidade, nunca temos e nem teremos o suficiente para viver. “Compre mais, compre mais”, esta é a mensagem repetida e repassada todos os dias, e não porque suas roupas estão puídas e rasgadas. Simplesmente sua roupa já não faz mais parte da moda. E a moda é que define o que é certo socialmente. Já pensou uma pessoa hoje ir a uma festa com um Nauru? Seria um escândalo. Já não é mais a moda, ficou de fora do ‘correto’.

E aí entra a questão do status social. Por exemplo, fiquei imaginando uma pessoa chegando a uma festa com um Nauru. Bom, por mais que ninguém dissesse que usar isto não é mais legal, não é preciso verbalizar formalmente algo para reprová-lo. Novamente entra a expressão para além do conteúdo. Quem nunca sentiu um olhar reprovador? Aquele olhar, quase insuportável, de que o que se está fazendo não é certo. E não é só questão de certo ou errado, pois a ideia não é só a reprovação. Fica a sensação de que com aquilo você não faz parte mais daquele grupo, você já não é mais aceito socialmente. E agora, o que você faz?

Bom, ou se muda de grupo, o que é uma atitude mais improvável, pois ali você já desenvolveu laços afetivos, ou então tentamos seguir o que é o ‘correto’, e isso quer dizer: corra para a loja e compre o mais novo modelo de sapato!

Vamos pensar agora ao contrário. O boné da Nike. Bom, primeiramente a Nike gasta uma baba de dinheiro em propagandas para reafirmar a qualidade do produto. E não só a qualidade, como o status. Já viu alguém fazendo propaganda para Nike que não estivesse dentro dos tais padrões sociais? Vira e mexe colocam algum jogador de futebol, um cara bonito e atlético, todos eles dentro do ‘profile’ que é reforçado. O primeiro, por ter dinheiro, e dinheiro definitivamente é um dos maiores status sociais, e o segundo pela estética, que também entra nesse ranking.

Assim, quando compramos este bendito boné não queremos um produto com procedência boa. Queremos mais. Queremos ser amados,queremos ser reconhecidos pelos outros, queremos que as portas sejam abertas para nós aonde formos, queremos receber olhares de aprovação, como se fosse ‘muito bem, garoto, é isso aí, está no caminho certo, está se comportando direito’.

Por fim, algumas pessoas me perguntariam, e daí, qual o problema disso tudo? Deixe as pessoas viverem seu mundo da fantasia em paz! O problema, e aqui vou ser categórica, é que acredito que este tipo de comportamento não valoriza e investe em uma potencialidade importante do ser humano, sua automia, sua liberdade. Enquanto estivermos amarrados pelo que nos ditam, pelo que devemos ser aos olhos dos outros, nunca poderemos investir em nossas capacidades enquanto indivíduos livres e autônomos, nunca poderemos nos produzir enquanto sujeitos livres e autônomos. Sempre que esperarmos um olhar de aprovação, a certeza do que fazemos nunca virá de nós mesmos, mas sim do que os outros estipularam. Continuaremos um padrão de dependência até o infinito. Ainda, estaremos abrindo em grande parte mão da nossa vida fazendo coisas que não queremos e que nos tornam amargurados (como trabalhos burocráticos, encontros sociais autônomos), nos escondendo de nós mesmos e do nosso desejo.

Mas a decisão cabe a quem quer decidir.

Obs: Tudo é uma perspectiva. Nada é uma verdade absoluta. No fundo, cada um sabe a verdade de si.


[1] Diálogo do seriado “Cenas de Casamento”, do diretor Ingmar Bergman.

Anda, Ana!

Ando na vida como sem saber como aqui vim parar. Ando a esmo, recebendo aconchego em alguns cantos, felicidades mínimas, angústias intensas, e assim vou vivendo.

Acordo os dias programados; vivo de restos do que me permitem viver.

Nestes dias, encontrei Ana, pálida, sorriso opaco, ombros caídos. Lembrei-me da juventude, daquela grande pequena mulher, cheia de vida, vigor, vontades. Lembrei-me do brilho que emanavam de seus olhos, hoje foscos, pesados – insuportáveis.

Lembrei também nossas noites intermináveis, de sorrisos e sussurros, da alegria incontida, das carícias pequenas, dos prazeres nossos enrolados nas pernas, braços, troncos…

Nos falamos por minutos, não tive interesse em prolongar o contato. Preferi conservar na memória aquela Ana de outrora, como uma lembrança doce de uma vida que passou.

Olhá-la me dói. De fato, dói. Vejo a mim, como no reflexo de um espelho perverso, e opto por não ver. Até quando se pode levar isto: é tão doloroso fingir não se ver…

Sinto um cansaço de viver. Sinto às vezes que estou apenas à espera da morte, do momento em que resolverá ela buscar-me e dar cabo a esta amargura.

Vou sorvendo das coisas a sua vida, alienando-me da minha, tentando assim conformar-me a vivê-la mesquinha e sem sentido.

E a Ana, o que lhe restara?

Soube do casamento, dos filhos, da aniquilação de si.

Soube da doença, da luta…

Soube disso em poucos minutos, e já me foi suficiente.

Como dói-me o peito ver nos outros aquilo que não fiz, não tentei, não fui capaz de ir adiante.

Não é nosso caso, Ana. És mero reflexo do que fui e hoje sou, mais uma pessoa a vagar neste mundo cinzento (ou foram nossos olhos que perderam a capacidade de ver-lhe as cores?)…

Ana, Ana, Ana… O que fizemos por nós, o que fizeram a nós, e porque assistimos a tudo tão omissos?

Anda Ana, anda… me explica onde tudo se perdeu!

Porque o óbvio também choca

Estava voltando para casa à noite e já podia sentir o cheiro de queimado ao longe. À medida que andava, sentia o cheiro aumentando, até que percebi a fumaça vindo de uma lixeira, dessas laranjinhas da prefeitura. Olhei por dentro e vi o fogo queimando alguns dos ‘dejetos’ que ali estavam, mas que ainda se concentrava em uma pequena parte da lixeira, nem atingindo a parte externa. Como sou pessoa bem calma, e constatei que o fogo não se alastraria com tanta rapidez, fui caminhando até o mercado próximo e pedi gentilmente ao rapaz que ali trabalhava por água para conter o fogo da lixeira. Expliquei a situação e simplesmente ouvi um “não, não temos água!”, como se a razão de sua resposta fosse negar o pedido de uma sedenta que tinha arrumado por desculpa um incêndio para pedir água – negação que também me choca, afinal, quem vive sem água?

Totalmente espantada, incrédula, na verdade, não consegui me conter: deve haver uma bica, algo assim! Tem uma lixeira que vai pegar fogo! – saindo, desta vez, definitivamente do meu tom calmo e sereno para um tom mais incisivo e desesperado. E foi então que o rapaz do mercado resolveu ir apanhar a água. Meu tom mais enérgico provavelmente deve ter surtido efeito em sua credulidade, não duvido. Diga-se de passagem que este mercadinho do qual falo (dado importante para o desenvolvimento da história) é daqueles careiros de bairro, do bairro da Tijuca inclusive, que vendem pelo preço que chega a doer o coração do pesquisador de ofertas barateiras. Às vezes quando vou comprar algo emergencial nele, fico pensando como as pessoas não percebem isso ou se percebem, porque se percebessem, penso que não continuariam comprando, ou continuariam? Ó dúvida ingênua…

Voltando ao fato, cansada de esperar, porque aí sim a lixeira pegaria fogo, resolvi ir ao China, do outro lado da rua. Chegando lá, foi contar para o rapaz rapidamente a história que o mesmo foi pegando a água, que conseguiu em fim chegar ao seu destino: apagar o fogo.

Depois, voltando para casa pensativa, cheguei a algumas conclusões, que não são tão bem conclusões, mas reafirmações do que eu já matutava nos miolos…

Primeira, “xô xuá, cada macaco no seu galho”. A lei que impera cada vez mais em nossa sociedade é: cada um que cuide da sua lixeira, e dane-se o público. Digo porque não fui a única pessoa a passar pela laranjinha desde que o fogo começou, e o cheiro da fumaça já vinha desde antes da esquina. “Mas isto é tão óbvio….” – Ainda acho triste reconhecer a obviedade desta constatação…

Segunda – Prefiro o humilde estabelecimento ao blasé. Isto é, mais vale o China sincero, com os seus pastéis e caldos de cana democráticos e acessíveis, a estes mercadinhos bestas de tijucanos ‘blasés’, que não sei se por osmose englobam a todos os seus funcionários transformados também em ‘blasés’, e que deveriam, todos, queimar na mármore do inferno – quer dizer, os funcionários quiçá não, mas os tijucanos blasés, disto tenho cada vez mais certeza.

Terceiro – Hoje em dia as pessoas estão tão acostumadas com atitudes desesperadas, falas em tons ríspidos, que a calma não leva mais a lugar nenhum. Se o apressado come cru, hoje em dia o calmo nem come mais. Pois é, manter a calma saiu da moda, e faz tempo, mas sem saudosismos, viram?

Vamos amar!

Eu coincidentemente assisti pela televisão a votação da Pec 23/07 sobre a mudança do texto constitucional que incluía uma alteração segundo a qual não poderíamos mais discriminar ninguém mais pela sua “orientação sexual”.

Assisti mais para o final, e fico feliz em parte de não ter visto a triste fala da Deputada Myrian Rios. Acho que não teria muita paciência e logo trocaria de canal. Mas nem quero me deter muito sobre o que ela disse.

Assisti alguns deputados falando, não muitos, mas o suficiente, e dentre eles assisti a fala de Marcelo Freixo, Bolsonaro Filho, Clarissa Garotinho, inclusive o deputado que é responsável pelo projeto, Gilberto Palmares, dentre outros.

Tirando pouquíssimos deputados, como o Freixo e o Palmares mais outras duas deputadas se não me falha a memória, todos os outros se mostraram extremamente conservadores nas suas decisões, recorrendo impiedosamente para as leis divinas, citando referências bíblicas e tudo o mais, e por fim conseguiram que a Pec não passasse. Fiquei um pouco incomodada de ver tantos deputados recorrerem a Bíblia. Não sou contra quem lê a Bíblia, mas acredito que por vivermos em um Estado Laico, qualquer decisão política tem que estar na esfera política dos direitos e deveres do cidadão, e não dos ‘direitos e deveres’ religiosos. Ver nossos deputados recorrendo sem nenhum pudor ao texto bíblico me faz pensar que vivemos de fato num estado laico hipócrita, onde a religião toma sim seu devido lugar. Muitos não devem achar ruim essa ‘intromissão religiosa’, mas não se vai muito longe quando podemos ler em algumas partes da Bíblia que a mulher deve ser submissa ao seu marido. Alguém no mundo moderno acha ainda que isto é válido? Mas sem querer perder o fio da meada, é por outra discussão, e não esta, que quero adentrar.

O que ficou matutando em minha cabeça foi o seguinte: porque será que as pessoas tanto temem a homossexualidade?

Eu estava lendo esta semana o gibi do V de Vingança (e fica a indicação), que fala de uma sociedade fictícia em Londres na qual os homossexuais são presos pelo Estado e levados aos campos de concentração para serem cobaias humanos e trabalharem forçadamente. Uma das pessoas que foram presas, uma mulher homossexual, faz uma pergunta que realmente é para mim a mais crucial em toda esta discussão sobre a homofobia: porque eles tem tanto medo de nós?

Podem dizer que é simplista, reducionista, ou generalizante da minha visão, mas acho que o que aqui reverbera é o grande tabu da Sexualidade que existe em toda a nossa sociedade, e não apenas da homo. O que as pessoas tanto temem na homossexualidade é a liberdade sexual de uma pessoa de um sexo poder estar com outra do mesmo, sem seguir nenhum ‘mandato’ ou ‘coordenada’ pré-estabelecida pela sociedade, pela bíblia, seguindo simplesmente o seu desejo. Falar da sexualidade, livre, que não vê homem ou mulher, mas que deseja de qualquer maneira, esta liberdade sexual talvez seja o que tanto cria pavor. E não é de admirar. Tudo que escapa dos padrões ditados cria estranhamento. Mas porque necessariamente este estranhamento deve ser sempre levado para o lado da intolerância?

Falar que hoje já passamos pela revolução sexual é talvez não se haver com o fato de que ainda a sexualidade é objeto de domínio e de poder das instituições familiares, religiosas, sociais de maneira geral. Doutrinam como devemos exercê-la: “se vai por aqui… e não por lá…”

Ora, mas coitada da sexualidade, deixem ela fluir… aprisionando-a aprisiona-se também parte do ser humano.

Por fim, fica a dica da música: Façamos! Vamos amar!

 

Mudando Paradigmas na Educação

O vídeo por si só já basta. Mas como uma nota de interesse, é importante refrisar que o modelo de educação adotado hoje pela maioria das escolas é histórico. Isso quer dizer que foi construído em determinado momento seguindo certos interesses sociais e políticos. Este é um excelente vídeo para repensarmos este modelo que foi adotado como ‘único’, pensarmos que já não funciona mais, e abrirmos um novo caminho na história da educação. Serve para nós como uma mensagem de conscientização para que uma nova educação seja possível, sejamos pais, professores, profissionais que trabalham na educação, enfim, seres humanos que querem formar novos seres humanos para viver em sociedade. Que sociedade será esta? Depende de que forma os sujeitos estão sendo produzidos, quais aptidões são exploradas, esquecidas, valores disseminados, outros rechaçados…

Enfim, fica a indicação do vídeo.

Obs: Existe a possibilidade de vê-lo com legenda. É só dar play e clicar no botão CC, que fica no canto inferior direito, selecionando o idioma Português.

Cântico:

Não sejas o de hoje.

Não suspires por ontens…

Não queiras ser o de amanhã.

Faze-te sem limites no tempo.

Vê a tua vida em todas as origens.

Em todas as existências.

Em todas as mortes.

E sabe que serás assim para sempre.

Não queiras marcar a tua passagem.

Ela prossegue:

É a passagem que se continua.

É a tua eternidade…

É a eternidade.

És tu.


Cecília Meireles

Cânticos – Cântico II

Use, mas com moderação.

Um dia desses ouvi de uma moça: não posso me esquecer, tenho que tirar fotos! – tornou-se um imperativo para si.

Outro dia, um rapaz talvez bêbado demais foi capaz de tirar cerca de quinhentas fotos em sequencia numa festa, a ponto de rolar um certo desconforto de a qualquer momento poder ser flagrada por um flash. E se eu quisesse tirar aquela melequinha despretensiosamente sem que ninguém percebesse?

Pelo que eu tenho de memória, acho que minhas fotos da infância, adolescência, não passam de trezentas. E olhe lá. Raramente as revejo. Ficam armazenadas em uma velha mochila. Mas vira e mexe, não sei o que acontece bem ao certo, recebo um chamado fotográfico e fico revendo algumas (geralmente isto ocorre quando chega o dia de procurar aquele velho documento, que nunca se sabe onde bem ao certo se guardou, mas que fica amontoado com as coisas antigas – como as fotos). As de um tempo para cá, raríssimo de ver. São tantas, tantos cds arranhados que não são mais lidos, tantas pastas, tanta coisa para relembrar, mas e para viver aqui, o presente?

Acho que daqui a algum tempo as pessoas vão ter mais fotos tiradas do que possíveis de serem vistas – e revistas. Talvez pior, mais fotos do que momentos vividos de verdade (como aquelas que já são tiradas com um objetivo já bem específico: para postagem na internet). Nada contra as fotos, nada contra a postagem, mas será que sou só eu que fico perdida em meio a essa confusão de tantas imagens? O que afinal elas representam, em toda essa quantidade excessiva? Viver para tirar fotos?!

Talvez a próxima máquina fotográfica deveria vir escrita: use com moderação.

Obs: Em homenagem ao post – sem fotos, por favor.

Eu fico com a pureza da resposta das crianças…

Eita que hoje saí c’uma vontade de gritar aos quatro cantos: -vivam! A vida é bela!

Apesar dos pesares. Do trabalho exagerado, das angústias, do medo.

A vida é bela.

Apesar da tristeza, da pobreza – de espírito e da matéria.

A vida é bela.

Afinal, há senão essa razão, outra pra viver?

De olhar pelo cantinho na janela, ver a Lua-sorriso de gato da Alice…

…Ah!

Que vontade de sair gritando: a ViDA é BelA!

Sem fri-fri, sem fró-fró, sem fru-fru.